
Quando a Prima chega.
Chegou avisando no calendário dos astros, mas sem alarde. Não por excesso de modéstia, posto que sempre fosse amostrada, exibida qual o nascer do Sol sobre o mar sem ondar com barquinho à vela, conduzindo amantes em efervescências de carícias e aconchegos, embora fingisse comedimento comportamental. Primeiro, o vento avisou de sua chegada apoteótica assobiando em redemoinhos noturnos destralaçando até a Lua, ainda encoberta por nuvens, sem anjos pairando na monotonia do nada fazer, ativando sonhos de bailarinas rodopiando no palco da fama, ao som da orquestra de violinos e gaita de Rildo Hora e flauta de bambu do Mestre Biano, como que dizendo que ela chegaria com alegorias carnavalescas da Portela sem pedir passagem, soprando o sombrio inverno implacável deste ano de 2022 para por detrás das serras de Caruaru, e rasgando o ar com colibris de cores luminosas, de bicos longos penetrando no âmago das flores como se desvirginando a poesia com que as rosas perfumam o ar. E, ainda, em passos lentos com vestido dourado, rasgado, mostrando coxas roliças e rígidas, quais brotos de bananeiras de folhas abanantes, tremulantes, tentando arrefecer o calor dos desejos com todos os pecados permitidos, ou não.
Ufa! A Prima chegou!
De repente, a casa se atulha com o perfume dela como incenso exalante da flor da pitangueira, esvoaçante no aroma de carinhos do aconchego com beijos nos olhos garços em rosto quadrado, qual a Aline Moraes, e o homem expectador do tempo, esgueiram-se à rede de punhos puídos pela rotina do balançar para lá e para cá, como a medir a velocidade do tempo, saudoso da Prima perfumada, em busca de confrontar o tempo ideal para o calor da paixão. Como se paixão tivesse início, meio e fim… Paixão apenas existe, sem tempo de ser, estar, ficar ou ir, sem garantia de existência eterna. Sacudiu no chão o capuz de lã que cobria sua cabeça no frio do inverno, o qual se assemelhava a esquimó sem iglu, dado por sua mãe. Desfez-se do capote serrano em cor marrom, a cor da iniciação à tristeza. Jogou-o sobre o fogão à lenha de brasas falsamente vivas, camufladas pelas cinzas da enganação. Abriu os braços, escancarou a prazerosa exclamação da felicidade, como se abraçasse o leste e o oeste, esturrando com a força total de seus pulmões:
E tomemos caldos de luz da esperança de dias melhores com flores multicoloridas e beija-flores, sem desprover nem ferir o planeta Terra, a nossa casa.
Vê se pode?!