Quando ela achar o dela, quem vai é ela!
Apurar os ouvidos usando transporte coletivo é gratificação pelo desconforto, pela irregularidade nos horários de saída e, principalmente, de chegadas, mas, vale ouvir as histórias da gente simples que conversa com mais desenvoltura que num consultório psicológico. Falam de si com reservas, quase cochichando, exceto quando estão raivosas contra o comportamento vil de companheiros. Mas, se a fofoca circula sobre alguém ausente, começa com dissimulada observação de que a fulana conhecida ficou viúva pela terceira vez… E se faz silêncio estratégico para ver ser tem gente concordante ou discordante.
– Esse já é o terceiro marido que ela mata! – observa alguém com suave comentário na voz falsamente dolosa. Passageiro mais sarcástico diz não casar com ela nem que fosse para comer cuscuz com charque e café preto todo dia. E riem em uníssono, e o riso estabelece a concordância de que todos podem comentar a “criminosa” viuvez da bela senhora sem o risco do contraditório e com a ousadia dos comentários sobre pessoa ausente, criatura que, com certeza, amarga a tristeza do velório e o cruel sepultamento do homem amado.
Antes do destrinchar dessa viuvez, cabe leve comentário sobre o veículo condutor dos passageiros embarcados no Salgado com destino aos “Alpes” Caruaruenses, no Riacho do Veado. – observe-se estarmos nominando região outrora habitada por quadrúpedes chifrudos e que nada tem a ver com jovens que balançam a bunda andando, dançando e aos beijos com outros companheiros do mesmo naipe.
Por falta da regularidade, fiscalização e punição, os ônibus circulam quando querem, sendo normal deixar os passageiros à beira do caminho com a desculpa que a estrada tem buracos. Daí só resta Toyotas alongados que transportam até trinta passageiros, e quem não for pendurado feito morcego, fica. A Toyota desta história nem o dono sabe o ano de fabricação; as borrachas já acabaram faz tempo, é ferro roçando ferro; freio até que tem numa roda empenada que vai parando aos sopapos; janelas protetoras da chuva já existiram, mas, também, chuvinha fina, do inverno na terra do Melhor São João do Mundo, Caruaru, não espanta ninguém; bancos rasgados com a ferragem beliscando bundas agoniantes; velocidade máxima: 30 km, nas descidas.
- Morreu de que o falecido? – perguntou alguém lá atrás, no quadradinho, espaço que cabe tantos quantos conseguirem se espremer. Alguns sentam na tampa com uma perna pra dentro e outra pra fora. “Melhor chegar tarde que nunca” – justificou alguém antes do embarque. O pedal do acelerador é um pedaço de ferro que um dia teve revestimento de borracha. Mas, pra quê (?) se tem borracha na sandália do motorista com estribeira segura por prego; para-brisas rachado; ausência de retrovisores e luz, nem pensar.
- Esse era mais idoso. Morreu de tanto azulzinho que tomou pra atender o fogo dela. Dizem que ela raspava o cachete azul e colocava no cuscuz matinal, no feijão do almoço e na sopa do jantar. O sujeito andava armado pela casa pela força do priapismo.– aqui sorriram duas lindas jovens que dividiam saquinho de pipocas levadas à boca uma da outra em preliminares à rinha das caranguejeiras. Todos percebem o novo caso de amor, mas não ousam criticar, exceto pelos olhares de reprovação, enquanto elas, nem aí. É o rural aceitando a modernidade do urbano. “Culpa da TV” – cochicha beata aparentemente com inveja, desejosa, mas com medo do fogo do inferno.
- O segundo morreu afogado numa das cachoeiras em Primavera quando ela teve a brilhante ideia de acoplarem seus corpos nus e, com muita cachaça no quengo, descerem o paredão escorregando nas águas. “Vige! Quanto pecado!” – murmurou a beata.
- E o primeiro? Perguntou um apressado curioso, o que aguçou os ouvidos dos espremidos passageiros prejudicados pelo ranger dos ferros da claudicante carroçaria do veículo.
O primeiro, dizem, era homem de circo mambembe que aceitou o desafio da mulher em fazê-lo se espichar na cama, completamente nu, enquanto ela subia e pulava do guarda-roupas para o primeiro acoplamento sexual aerotransportado. E assim o homem concordou, visto que, também, tinha pouco juízo, pois, era trapezista sem rede. A mulher pulou e acoplou, mas a cama quebrou e uma haste do lastro perfurou os pulmões do sujeito que morreu com largo sorriso nos lábios. O delegado, ao ouvir o relato da mulher, se negou a relatar o fato no inquerido dizendo que “só escritor maluco relata uma historia dessa” e registrou o caso como acidente doméstico. - Eita! Quem se habilita a casar com a viúva? – perguntou alguém lá no quadradinho.
Dentre os passageiros, convém personalizar a presença de criatura silenciosa sentada à janela, parecendo entidade orixás do Candomblé. Preto Velho, magro, marcado pelas rugas do tempo da cruel escravidão que ainda persiste no campo. Não esboçava nenhuma emoção ao relato dessa história, não ria nem contraia os músculos do rosto. O Preto Velho chegou ao seu destino: casinha mal tratada pelo tempo lá no alto onde se chagava por estradinha de formigas; tocou no ombro do motorista indicando silenciosa parada. Desceu, pagou, e voltou à janela pra dizer a única frase que calou a todos até o final da viajem. - Quando ela achar o dela, quem vai é ela. – sentenciou com profunda sabedoria.
Vê se pode?!